o reino dos que sabiam

Publicado neste site primeiramente em 21 de outubro de 2008.

Era uma vez, há muito, muito tempo atrás, um reino. Lá, todos os habitantes viviam felizes. Esse reino não era muito vasto, nem muito próspero, entretanto, as pessoas que lá viviam, buscavam ajudar umas as outras. Quando uma família estava com problemas, outras ajudavam. Dessa maneira, cada habitante desenvolveu o hábito de desejar e agir pelo bem de todos. Ninguém queria ver seu vizinho em dificuldades.


Como eles precisavam trabalhar por sua sustentabilidade, perceberam que quando havia discordância, todos saiam perdendo. Quando havia acordo e concenso a atmosfera ficava excelente para todos.
Houveram situações em que a maioria acordava e uma minoria ficava descontente. Nesses casos, todos perceberam que a atmosfera não se comparava à do consenso geral. Após algumas tentativas e erros, ficou óbvio que o melhor sistema de convivência, mesmo que mais trabalhoso, era o do consenso geral. Não era raro perder-se horas e horas buscando acordos, até para as coisas mais simples, que fossem bons e aceitáveis para todos. Não lhes restava nenhuma dúvida que esta era a melhor escolha.
Talvez você esteja se perguntando: e o rei? O que fazia o rei?
Esse rei não era como outros. Ele tinha os mesmos direitos e deveres de todos os outros habitantes…
Uma outra coisa interessante desse reino era a divisão do trabalho. Parece que cada um tinha encontrado um bom equilibrio entre aquilo que gostava e precisava fazer.
Lá, as pessoas também tinham suas alegrias e tristezas, mas parecia terem encontrado a melhor convivência possível.
Não muito longe desse reino, havia uma bruxa. Muito má. Ela era do tipo das que não pensavam duas vezes na hora de se vingar de alguém que não fazia aquilo que ela queria. A bruxa vivia sozinha. Ela era muito triste. No passado, ela tinha vivido naquele reino, mas, como ela só pensava em si e não gostava de agir pelo bem de todos, o deixou. Ela tinha muito ódio no coração. Ela tinha criado uma estória para si mesma e acreditava que todos do reino eram maus e ela, boa.
Um pouco mais distante dali, vivia um sábio. Muito sábio. Ele era do tipo que gostava de pensar antes de tomar atitudes. Sempre queria achar consensos e ver os outros felizes. O sábio vivia sozinho. Ele era muito feliz. No passado, ele tinha vivido naquele reino, mas o deixou buscando uma vida espiritual. Ele tinha muito amor no coração. Semanalmente ele voltava ao reino para ajudar os enfermos.
A bruxa passava o dia pensando como ela poderia machucar os corações dos habitantes do reino. O sábio passava o dia pesquisando a cura de cada enfermo que cuidava.
Não se sabia ao certo o que tinha tornado o sábio sábio e nem má a bruxa. Ambos tinham tido tanto experiências boas, quanto ruins. Um decidiu virar sábio a outra decidiu virar bruxa. Quanto mais o tempo passava, mais bruxa virava a bruxa e mais sábio virava o sábio.
Um belo dia, ao voltar do reino o sábio avistou a casa da bruxa e decidiu passar por lá. Queria apresentar-se e oferecer amizade. Ao chegar, logo antes de bater na porta, ouviu uma gargalhada maligna:
- Hahahahahahaha! Quem ousas invadir o território da bruxa?
- Perdoe-me senhora. Só vim apresentar-me, sou seu vizinho!
- Espera que eu acredite? Sei muito bem o que você quer! Quer roubar minha água e se apoderar de meu terreno!
Sem esperar nenhuma resposta, a bruxa lançou um raio ao sábio e o transformou num pássaro. O sábio mesmo sendo imune a feitiços permitiu que aquele o atingisse e se foi voando pelos campos.
Todos os dias, ao amanhecer, o passarinho acordava a bruxa com um canto indescritivelmente maravilhoso. A bruxa não se deu conta que este canto vinha do pássaro de seu feitiço. A princípio ela despertava ainda mais enraivecida do que já era. Praguejava contra a mãe natureza e contra os deuses dos pássaros… Mas, com o passar dos anos, aquele canto mágico foi causando uma transformação muito profunda no coração da bruxa.
A cada amanhecer, a vibração daquele canto reverberava em todas as células da bruxa. Era como um poderoso mantra. Dia após dia, os traumas, os medos, os ódios e as mágoas da bruxa iam se dissolvendo e se dissolvendo. O canto promovia uma cura definitiva. Era como um verdareiro renascimento.
A bruxa já havia decorado a melodia daquele canto e quando começava o raiar do dia, ela em perfeita sintonia com o belo passarinho, repetia o canto, ora mentalmente, ora cantarolando com os lábios fechados. Nessa altura nem poderiamos chama-la de bruxa. As suas feições já tinham se transformado totalmente. Os pensamentos que habitanvam sua mente eram outros. Até mesmo seu corpo estava diferente. A anciã estava bela e com um brilho especial nos olhos.
Um dia, a anciã abriu a janela e o passarinho pousou no peitoril. Ela se sentiu tão abençoada…Quis tocá-lo e quando o fez, seu antigo feitiço se desfez. O sábio reapareceu. A anciã estava completa e definitivamente curada.
Os dois viraram grandes companheiros.
Dizem que ninguém vive mais naquele reino. Cada habitante resolveu sair para ajudar que todos os reinos também possam encotram aquela harmonia. E eles viveram e vivem felizes para sempre.

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