desfazendo 16 mitos sobre o Ashtanga Vinyasa Yoga

Escrito em 2/8/2007 e revisado em 8/12/2009.

Nossa mídia, na maioria dos casos, não informa com profundidade. No caso do yoga não é diferente, há pouca informação de qualidade. Na maioria das vezes há informação  tendenciosa e facciosista, que gera mitos e preconceitos. É na tentativa de desfazer certos mitos e preconceitos sobre o Ashtanga Vinyasa Yoga, que escrevo esse artigo.

“Sabedoria não é buscar um corpo ultra-eficiente e sim aprender a utilizá-lo com inteligência. Muitos que pensam estar meditando na verdade estão se auto-enganando. Transformam o ato de sentarem-se com olhos fechados numa fuga ou numa espécie de atestado de que são evoluídos. Muitos ficam sentados com olhos fechados, elocubrando e visualizando coisas, pensando que isso é meditação. Os que escolhem sentar-se para meditar devem saber o que fazer e ter certeza de que não estão se enganando, caso contrário, estarão apenas perdendo tempo”. Bruno Bartulitch

Introdução

Nossa mídia, na maioria dos casos, não informa com profundidade. No caso do yoga não é diferente, há pouca informação de qualidade. Na maioria das vezes há informação  tendenciosa e facciosista, que gera mitos e preconceitos. É na tentativa de desfazer certos mitos e preconceitos sobre o Ashtanga Vinyasa Yoga, que escrevo esse artigo.
O Ashtanga Vinyasa Yoga tem capacitado muitos a praticarem e estudarem sozinhos de maneira autônoma e livre. Tudo que estimula muito a autonomia e a liberdade é criticado, e muitas vezes, sofre com maledicências. Principalmente por parte daqueles que sentem-se prejudicados comercialmente e não percebem que seria melhor para todos, que os indivíduos fossem equilibrados e autônomos ao invés de alienados e dependentes.
Vejamos o que nos dizem algumas escrituras sobre conhecimento:

O conhecimento não precisa de um objeto para conhecer. O conhecimento é independente e eterno. Está além de qualquer descrição ou definição. Quando se percebe esta verdade de fato, somente então há conhecimento perfeito.
Yoga Vasishtha, vi:2.190

  

Fixando a atenção no interior do crânio, sentado com os olhos fechados, conquistando a estabilidade da mente, o yogi gradualmente conhece tudo o que há para se conhecer.
Vijñanabhairava, 32

 

Ó homem que procura a verdade e a sabedoria! Abre os braços e deixa que o conhecimento chegue a ti de todas as partes! A verdade é uma e os sábios irão ensiná-la de diferentes maneiras.
Rg Veda

 

 Mitos

Mito n.º 1 – Ashtanga Vinyasa Yoga (AVY) é só para pessoas jovens e em plena forma.

É fácil compreender que esse mito exista, afinal, após um bom tempo de dedicação, o praticante adquire mesmo plena forma. (mesmo não sendo esse o objetivo da prática). Também, por que praticantes dedicados de idade avançada não aparentam mesmo ter a idade que tem.
Em todo caso, esse é um mito. Como nos ensinou Sri Tirumalai Krishnamacharya, pessoas de qualquer idade e condição física podem praticar por que o método se adequa aos limites e capacidades de cada um.

Mito n.º 2 – Ashtanga Vinyasa é muito exigente fisicamente.

O Ashtanga Vinyasa realmente, para quem está em plena forma, é o método de yoga mais exigente fisicamente. Mas, para quem não está, é extremamente suave, assemelhando-se aos tipos mais conhecidos de Hatha Yoga. Novamente, ele se adequa a condição de cada um. A prática pode ser mais longa ou mais curta, por exemplo, dependendo de cada caso.

Mito n.º 3 – Ashtanga Vinyasa é muito difícil.

Mitos como esse e o anterior tem uma raiz em comum: professores despreparados. Muitos professores de outras linhas de hatha yoga, quando perceberam a procura e o interesse pelo método AVY, leram um livro, fizeram cursos em finais de semana ou algumas aulas avulsas e se auto-avaliaram capazes de ministrar aulas.
Apenas pela impressão que tiveram do método, começaram a ensinar. Escolhem então, as aulas guiadas (que nem é o estilo tradicional de aula). O mais grave é normalmente eles não observam um dos fundamentos mais importantes do método: o vinyasa krama, o aprendizado gradativo.
Ensinam, portanto, uma prática que seria indicada para atletas, à pessoas iniciantes. Assim, fica fácil compreender porque alguns acharam a pratica difícil ou muito exigente fisicamente, porque não conheceram realmente o Ashtanga Vinyasa, ou seja, uma prática adequada as suas capacidades.
Por outro lado, vale lembrar que o professor almeja levar o aluno sempre a um passo à frente. Assim sendo, o professor estimulará o aluno a transcender suas limitações, sempre ensinando coisas novas.  Aprender o novo é por vezes considerdo difícil.

Mito n.º 4 – Ashtanga Vinyasa trabalha só o corpo.

Mito compreensível numa sociedade que costuma rotular tudo de antemão, sem mesmo conhecer o que se rotula. Como seu próprio nome diz, AVY é um método que combina ou sincroniza o caminho óctuplo de Patañjali.
Utiliza-se o corpo físico como meio, como ferramenta para conhecer o universo e a si mesmo, como em qualquer outro método de hatha yoga. O corpo é apenas isso, o meio, a ferramenta.
Trabalha-se no AVY, além do corpo, muitos outros aspectos, há o desenvolvimento da capacidade de atenção, da memória e da concentração. Há também uma investigação de nossas latências, das nossas tendências e dos nossos sentimentos. E, eventualmente, a percepção de nossa verdadeira natureza: liberdade, felicidade e consciência.
Costumo dizer que a plena forma que a prática traz é um efeito colateral ou um ganho extra, porque não é o que se deve buscar. Pratica-se buscando auto-conhecimento. O corpo tem importância em todas as tradições de Hatha Yoga, mas é compreendido apenas como um veículo que deve ser eficiente. Sabedoria não é buscar um corpo ultra-eficiente e sim aprender a utilizá-lo com inteligência.

Mito n.º 5 – AVY é técnico demais.

Todos Hatha yoga são técnicos. A prática proposta em escrituras, como Gheranda Samhita, é técnica. A prática ensinada por Iyengar é técnica. Todas as práticas têm sua técnica. O que seria técnico demais? Técnicas sem razão? Técnicas inúteis?
Na didática do Ashtanga Vinyasa há tanto a contagem exata de vinyasas para cada ásana (onde todos praticam em sincronia), como existe a prática (estilo mysore)  em que praticantes mesmo trabalhando lado a lado fazem práticas totalmente diferentes.
Não há um tecnicismo vazio nisso, pelo contrário, as técnicas tem uma razão clara. As duas didáticas trabalham aspectos diferentes que colaborarão no processo de construção da prática pessoal. É justamente para evitar uma rebuscação intelectual vazia que muitas aulas são silenciosas. Assim desenvolve-se outras e importantes capacidades. Ou seja, não é uma prática técnica demais, é técnica o necessário, assim como todos os outros tipos de Hatha yoga.

Mito n.º 6 – Ashtanga Vinyasa é uma prática sempre igual.

Por ter uma série, uma sequência, que serve de linha mestra, de objetivo a ser alcançado, surge mais um mito. Novamente, mais um mito que não leva em conta uma característica básica do método: vinyasa krama.
A prática se adequa às condições momentâneas de: saúde, físicas, psicológicas, climáticas e etc. Por isso ela se adapta de acordo com o aprendizado, com a idade e etc.
Além disso, mesmo ensinando o mesmo método e estilo, cada professor ensina de maneira única, assim como acontece em qualquer método de yoga.

Mito n.º 7 - Ashtanga Vinyasa causa lesões.

O que causa lesão é: irresponsabilidade, inexperiência e insensibilidade. Dessa forma, não só qualquer método de Hatha Yoga pode lesionar, mas também qualquer tipo de atividade física.
Quem ensina com cuidado, atenção e responsabilidade não lesiona alunos. Quem pratica com cuidado, atenção e responsabilidade não se machuca.
Há uma imensa quantidade de praticantes, que praticam por vários anos e que nunca se lesionaram.
Se construirmos uma prática fundamentada nos yama e nyama, com: não-violência, disciplina e auto-estudo, por exemplo, nem aluno, nem professor ultrapassarão a barreira do saudável.

Mito n.º 8 – Ashtanga Vinyasa não tem meditação.

Como para tudo que se ensina no AVY, há dois requisitos: preparo e interesse. Se não há preparo e há interesse não se ensina. Se há preparo, mas não há interesse também não se ensina. O aluno não deve ter pressa em aprender. O professor ensina à medida que o aluno está pronto. No AVY o professor pode recomendar sim, dependendo do aluno, meditação antes ou depois da prática.
Sem uma ótima capacidade de concentração e um corpo preparado, não é possível meditar. A prática desenvolve de maneira excelente essas capacidades. Talvez por isso, alguns praticantes entendem que não é necessário sentarem-se para meditar, mas muitos o fazem.
Podemos verificar na obra de Patañjali que não é necessária nenhuma postura específica para meditação. O que seria necessário para tal seria “o fluxo contínuo de cognição rumo a um objeto” (y.s. 2:3).
Muitos que pensam estar meditando na verdade estão se auto-enganando. Transformam o ato de sentarem-se com olhos fechados numa fuga ou numa espécie de atestado de que são evoluídos. Muitos ficam sentados com olhos fechados, elocubrando e visualizando coisas, pensando que isso é meditação.
Os que escolhem sentar-se para meditar devem saber o que fazer e ter certeza de que não estão se enganando, caso contrário, estarão apenas perdendo tempo.

Mito n.º 9 – Não há estudo de escrituras no AVY.

A prática estimula, acima de tudo, a autonomia e a iniciativa do praticante. Se ele quiser praticar com a atitude interna incorreta, estará praticando apenas uma atividade física. Se ele praticar com atitude correta (que inclui estudos) estará praticando yoga. Essa escolha deverá ser do aluno. Não se obriga ninguém a estudar.
Se ele tiver interesse, preparo e quiser estudar escrituras como Bhagavad Gita ou os Sutras do Yoga, o professor pode conduzir esse aprendizado em momento oportuno, mas o aluno deve ter demonstrado interesse e dedicação.
Sri K. Pattabhi Jois, discípulo de T. Krishnamacharya e principal difusor do método, mesmo aos 92 anos, sabia décor essas e outras escrituras. Ele valoriza e muito o estudo das escrituras, mas, para muitos alunos ele fala que é mais importante praticar do que estudá-las. Explico:

Por exemplo, existe no aprendizado de qualquer língua o termo analfabeto funcional. Pessoas que passaram por estudo formal, mas que não sabem nem compreender um texto e nem escrever um. Ou seja. Em relação ao aprendizado, elas passaram para um estágio, sem ter aprendido bem um anterior.

No AVY a idéia é jamais passar para outro estágio sem antes ter aprendido bem o anteriror.

As escrituras, para serem compreendidas, exigem de antemão certa compreensão de si e do universo, que só é obtida experienciando o yoga, praticando. Os alunos ocidentais, muitas vezes preguiçosos, querendo fugir da dedicação ao seu sadhana e do estudo de si mesmos, imaginam que conseguirão compreender Brahman através da razão, através apenas de ler escrituras.
Somente com uma compreensão um pouco mais profunda de si é possível compreender os ensinamentos das escrituras (com ou sem a ajuda do professor). Antes disso, estudá-las pode gerar ainda mais confusão e auto-engano.
Outro ponto importante é que esse método visa capacitar cada individuo a fazer suas próprias interpretações das escrituras.

Mito n.º 10 – Não se faz mantras na prática de Ashtanga Vinyasa.

A prática inicia e termina com mantras. Além desses, ainda pode ser ensinado e recomendado outros, dependendo de cada aluno. Alguns são instruídos, por exemplo, a fazerem mantras durante o suryanamaskar.
Reforço: a prática se adequa a cada praticante e estimula sua autonomia e iniciativa. Há, por exemplo, muitos praticantes que se reúnem em kirtans.

Mito n.º 11 – Não se faz yoganidra na prática de Ashtanga Vinyasa.

O professor pode instruir de maneira diferente cada aluno. Para alguns instrui a meditação, para outros indica mais mantras. Para alguns, como deve ser seu yoganidra durante o relaxamento, para outros que devem fazer menor ou maior permanecia nas posturas. Para alguns que devem fazer vinyasa, para outros que não.
No AVY, além do yoganidra guiado utilizado por muitos professores, há também o yoganidra silencioso, onde, assim como na execução dos ásanas no estilo mysore,  é o próprio aluno que se conduz mentalmente. Ele também pode ser instruído a pensar no mantra OM, ou pode ser instruído a apenas relaxar e prestar atenção em sua própria respiração. Tudo depende de quem é o aluno.

Há alunos deficientes físicos, idosos, jovens, doentes, gestantes, iniciantes, avançados, que se interessam pela filosofia, que só se interessam pela parte física, enfim, há uma infinidade de tipos de alunos. O professor deve ter experiência, com sua própria prática, para conseguir indicar corretamente aquilo que cada um deve fazer.

Mito n.º 12 - O Ashtanga Vinyasa é recomendado somente para alguns tipos de Doshas.

Infelizmente esse é mais um mito fruto do desconhecimento do que seja o Ashtanga Vinyasa. O Ashtanga Vinyasa é um método adaptável a qualquer condição física, idade e a qualquer dosha (Pitta, Vata ou Kapha). A série não é imutável e sim uma linha mestra, pode ser praticada de várias maneiras: com curta, média ou longa duração, com intensidade variável, com ou sem vinyasa, com ou sem permanência, com permanência breve ou longa, com ou sem meditação, com ásanas personalizados, enfim a prática é construída levando em conta as características individuais do praticante, inclusive seu dosha.

Mito n.º 13 – O Ashtanga Vinyasa não pode ser praticado por gestantes, deficientes físicos, idosos ou qualquer pessoa que necessite de atenção especial.

O método pode ser sim praticado por qualquer pessoa em qualquer estado de saúde, desde que seja adaptado com responsabilidade à condição de cada um. Alunos com necessidades especiais irão requerer ainda mais atenção do professor. Nesses casos, em minha opinião, a aula deverá ser particular. 

Mito n.º 14 – O Ashtanga Vinyasa “infla” o ego.

Todas as práticas de Hatha Yoga que melhoram a auto-estima do praticante correm esse risco, o de “inflar” o ego dos praticantes. Mas por que elas melhoram a auto-estima ou “inflam” o ego? Porque muitas vezes o praticante adquire mais atenção, mais calma, mais poder de concentração, mais saúde, mais consciência, amor próprio, etc. Muitos praticantes de yoga deixam, por exemplo, de usar drogas e de cometer atos contra seu próprio bem-estar. Todos os benefícios, de início, podem fazer os iniciantes a sentirem-se mais inteligentes e superiores aos que cometem atos contra si próprios. Entretanto, se o praticante mantiver a atenção sobre a importãncia de praticar Yama e Nyama, se manterá na direção correta, em direção a transcender o ego e não em inflá-lo.
Observação: Como nos ensina a psicologia transpessoal, para se transcender o ego é necessário ter um estruturado.

Mito n.º 15 – O Ashtanga Vinyasa é uma prática só para ricos.

Esse mito não leva em conta professores que fazem ações sociais, ministram aulas na FEBEM, em presídios, em favelas ou para moradores de rua. Também não leva em conta, os que procurados por alunos sem condições financeiras, abrem a possibilidade de ensinarem em troca da prestação de algum serviço.
O professor de yoga normalmente ensina por vocação e não por dinheiro, mas pode ter sim uma vida digna fruto de seu trabalho. Só não acho uma boa, macular o yoga e torná-lo mais comercial e lucrativo.
Por isso, muitos professores não superlotam suas salas de aula. Assim, podem manter a qualidade de ensino e o bom nível de atenção dispensado a cada aluno. Ensinar com qualidade é capacitar bem os alunos.

Mito n.º 16 – O Ashtanga Vinyasa tem ajustes fortes.

Os ajustes têm duas funções principais: 1- acertar o alinhamento postural, protegendo a integridade física do aluno e 2- ajudá-lo a aprofundar-se na postura.
Quando levamos em conta um dos fundamentos básicos do método, o vinyasa krama (gradatividade) e os yama e nyama(não-violência, disciplina e auto-estudo e etc.) nem aluno, nem professor, ultrapassarão a barreira do saudável.
O aluno iniciante receberá ajustes leves. Se o aluno tiver anos de prática, e se for adequado ao seu caso, receberá ajustes mais intensos.
Os ajustes devem ajudar o aluno a compreender as corretas intenções em executar as posturas. Os ajustes indicam o caminho que o aluno, com seu próprio esforço, deve almejar. O ajuste correto é uma ajuda.
Outra questão é a significação que o ajuste pode ter para o aluno. Cada pessoa tem uma relação diferente com seu corpo e uma reação diferente em ser tocado. Um professor ético toca seus alunos com profissionalismo e cuidado.
Muitas vezes o ajuste pode ser considerado forte não no aspecto físico e sim no emocional, pois se for eficiente e adequado, ajuda a levar consciência a uma região esquecida e isso pode comover.

Lembrando: a prática de ásanas pode nos libertar de condicionamentos e de nossos bloqueios.

 

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